As CÂNDIDAS
Por mim, teria invadido suas consciências. No entanto, pude apenas adivinhar-lhes nuances tão fugidias quanto o tempo que logo nos distanciaria. Aquelas mulheres reunidas a mim constituíamos uma espécie não rara de humanos entregues a: Cândida, a primeira, senhora branca, olhos desfigurados por lentes grossas, voz firme a contrastar com o passo em desequilíbrio que numa precipitação a entregou a outra, Cândida, mulher negra, cujo sorriso em desarranjo inspirou-me uma gargalhada _ por força, sufoquei-a, com isso, decerto, alguma entidade mágica extinguiu-se _, seu cabelo pixaim estava dominado num belo coque seguro por um elástico tosco, a bolsa que trazia consigo não era sua, pertencia a Cândida. Eram ambas sua, sua bolsa e sua doméstica, tudo ficou claro logo que despontaram no alto da escada e se alojaram na ante-sala do laboratório.
As duas mulheres adentraram apoiando-se uma a outra, dividiam o peso de tantos lances de escada. Mas não havia nisto nenhum ineditismo, uma das atribuições da outra Cândida era certamene servir-lhe de bengala. Os acentos estavam todos ocupados. Doendo minha consciência, cedi-lhes meu lugar, imediatamente ocupado por Cândida; auxiliou-a, num zelo incomum, a outra Cândida. Logo depois iniciaram um ritual particular: a senhora, uma voz altissonante, incontida por um despudor comum aos falsos eleitos, emitia solicitações as mais comezinhas: o lenço para os óculos, a bala de menta, a guia médica... A outra, um anjo de solicitude, em seus gestos uma gratidão impensável, incomensurável.
A sala estava apinhada de gente. A mulher com o recém-vindo-a-luz já estava ali quando chegamos, acompanhava-a um homem quieto que se entretinha em estar à disposição dos caprichos dela, sobretudo aqueles motivados por cada movimento do pequeno: água, fralda, calor, frio... demora. Outras tantas pessoas, não pude escapar, a janela protegida por um vidro transparente levou meus olhos e meus pensamentos dali. Até que alguém descerrou uma das duas portas que ocupavam o centro da sala. Todos aguardavam o momento de passar por uma delas, livrar-se de tudo e ir embora. Surpreendeu-nos um senhor altíssimo, vestia um branco amarelecido. Suas mãos enluvadas impediram-me de ouvir o nome da mulher recém-maternascida.
Recebeu a criança no colo, seu olhar gritava: Que fazer? Niná-lo decerto, fazer-lhe caretas, dizer-lhe algo em murmúrios. Eram raras as vezes em que se viam assim: pai e filho, um por conta do outro. Achegou-o ao peito candidamente, no entanto, o bebê irrompeu num choro bravo, de quem quer porque quer o brinquedo antigo. Neste momento, não pude conter minha irritação e impaciência, cheguei perto deles e com o olhar sufoquei aquele serzinho, mas qual minha surpresa: aquele choro penetrou em meus ouvidos, fulminante. Teria desmaiado em loucura se ela não tivesse intervido.
- Deve ser fome! – Disse a outra Cândida. Cada palavra sua ressoava em mim um hino sórdido a humildade.
- Mas ele acabou de mamar... Deve estar estranhando algo. – Replicou o pai. Levantou-se ninando o pequeno, insistente, ansioso por ser um bom pai.
Afastei-me aturdido, mas ela resgatou-me num comentário besta, do tipo: “Filhos são uma benção!” O homem altíssimo reapareceu, suas mãos enluvadas impediram-me novamente de saber Quem o escolhido da vez. A outra Cândida continuava de posse de mim: “Tenho um filho. É um menino bom. Dezoito anos...
A senhora ali é muito boa pra mim. É aposentada. Moramos no mesmo bairro. É sozinha, coitada. Paga pouco, mas é uma boa alma. Acompanho ela aonde vai. Tem medo de dar um ataque e morrer sem nenhum conhecido por perto. Meu filho é jardineiro. Emprego tá tão difícil, não é? De vez em quando ele sai com as ferramentas, se oferecendo para cuidar de qualquer jardim, para podar uma árvore... Quando consegue algo, pagam muito pouco. Faz bico, mas quando se chateia deixa de ir. Perde o trabalho. Ele gosta mesmo é de ficar no fliperama. Nunca vi. O pouco dinheiro que ganha, gasta ali. E quando acaba o seu, vem atrás do meu. O pai dele...”
- Ana Maria da Silva! – O enfermeiro de mãos enluvadas chama a próxima. Minha mãe acena-me e o segue. Daqui a pouco estarei livre.
“... perdeu-se no mundo. Me largou, o menino nem tinha nascido. Criei ele sozinha. Faço faxina além de trabalhar na casa dela. (Coça a cabeça. Retira do coque um grampo de cabelo; abre-o com a boca e o recoloca, num gesto rápido e vertiginoso.) Casei de novo, depois de ele já grande, mas não deu certo. O homem tinha um bar na frente do barraco dele. Me colocou pra tomar conta. Além de me fazer de empregada em casa. Trabalhei muito ali e fora também, nas faxinas. Tudo pra ajudar ele a transformar aquele barraco numa casa. Um dia nós brigamos feio, de um tirar sangue do outro. Ele me tocou de casa só com a roupa do corpo. Safardana. Agora tá lá, sozinho, doente...”
No mesmo instante ambos olhamos para Cândida dormitando na cadeira. Procurei o pai com seu filho, mas já não se encontravam. Busquei então a janela para uma fuga rápida. Lá fora chovia; o mundo coberto por inúmeros pingos grossos não me servia. Em minha consciência doía pensar minha vida em confronto com aquela vida cândida. Quem aquela mulher para me confrontar assim? Ainda bem que o enfermeiro reapareceu e respondeu-me:
- Cândida Maria de Jesus.

1 Commentários:
Fran, vc me surpreende cada dia mais! Parabéns pela produção!!
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